Ideia de carta · Do nascimento aos 4 meses
Escreva o que ninguém vai lembrar
O cheiro da cabeça, o barulho que faz mamando, o jeito que segura o dedo. São as coisas que somem primeiro da memória. Uma frase basta.
O que some primeiro
A memória guarda mal justamente o que é constante. O cheiro da cabeça, o peso exato no colo, o som que ela faz antes de chorar de verdade: nada disso vira foto, e some sem avisar. Não é que você vá esquecer o nascimento; você vai esquecer como era estar ali.
Escreva agora, mal escrito
Esta carta não precisa ser bonita. Ela precisa existir enquanto a informação ainda está fresca. Dez minutos, no celular, com uma mão só, na madrugada. O texto torto é parte do documento.
- O cheiro. Tente descrever, mesmo que saia bobo.
- O peso no colo, e como ele muda quando ela dorme.
- O som exato do choro, e o outro som, o de antes do choro.
- O que você sente às três da manhã, sem filtrar para ficar bonito.
- O que te assusta. Isso também é verdade daquele dia.
Não escreva para ela agora
A tentação é escrever uma carta de conselhos para o futuro. Guarde isso para depois. O que tem valor hoje é o relato do presente, porque é ele que ninguém consegue reconstituir vinte anos depois. Conselho você dá pessoalmente; o cheiro dos primeiros dias, não.
Uma por semana, no primeiro mês
Quatro cartas curtas valem mais que uma longa que nunca sai. E as quatro juntas mostram uma coisa que uma só não mostra: o quanto muda em trinta dias, dela e de você.
Outras ideias para esta fase
Do dia a dia
Filme o comum
O banho, a mamada, o caminho de casa. Ninguém filma o comum porque parece que vai durar para sempre, e é o comum que some sem avisar.
Ideia de foto
A foto das mãos
A mão de vocês ao lado da mão dela, na mesma foto. É a imagem que mais impressiona anos depois, porque a escala não volta nunca mais.
Ideia de carta